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        <article-title>Do Facebook às ruas: comunidades em interação</article-title>
      </title-group>
      <contrib-group>
        <contrib contrib-type="author">
          <string-name>Luã Marcelo Muriana</string-name>
          <email>lmuriana@ic.uff.br</email>
          <xref ref-type="aff" rid="aff2">2</xref>
        </contrib>
        <contrib contrib-type="author">
          <string-name>Cristiano Maciel</string-name>
          <email>cmaciel@ufmt.br</email>
          <xref ref-type="aff" rid="aff1">1</xref>
        </contrib>
        <contrib contrib-type="author">
          <string-name>Ana Cristina Bicharra Garcia</string-name>
          <email>bicharra@ic.uff.br</email>
          <xref ref-type="aff" rid="aff3">3</xref>
        </contrib>
        <contrib contrib-type="author">
          <string-name>Palavras-chave: Comunidade</string-name>
          <xref ref-type="aff" rid="aff0">0</xref>
        </contrib>
        <aff id="aff0">
          <label>0</label>
          <institution>Facebook. Interação social.</institution>
        </aff>
        <aff id="aff1">
          <label>1</label>
          <institution>Inst. de Computação - UFMT</institution>
          ,
          <addr-line>Cuiabá, MT -</addr-line>
          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
        <aff id="aff2">
          <label>2</label>
          <institution>Instituto de Computação - UFF</institution>
          ,
          <addr-line>Niterói, RJ -</addr-line>
          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
        <aff id="aff3">
          <label>3</label>
          <institution>Instituto de Computação - UFF</institution>
          ,
          <addr-line>Niterói, RJ -</addr-line>
          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
      </contrib-group>
      <abstract>
        <p>In June 2013, Brazil witnessed several manifestations different from anything previously seen, since president Collor's impeachment. However, there is a big difference: now they are organized in few days. With Facebook, physical and virtual communities spread fast and easily organize demonstations. Popular mobilization for mutual concern issues, supported by technology, allowed the gathering of information by collective intelligence. The fanpage of the demonstration and that of the demonstration events in Facebook are studied in this paper, in order to analyze the interaction among users and to identify if this social networking can be considered a virtual community.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd>Virtual Community</kwd>
        <kwd>Demonstrations</kwd>
        <kwd>Facebook</kwd>
        <kwd>Social Interaction</kwd>
      </kwd-group>
    </article-meta>
  </front>
  <body>
    <sec id="sec-1">
      <title>-</title>
      <p>Virtual.</p>
      <p>Manifestações.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-2">
      <title>INTRODUÇÃO</title>
      <p>
        Em Junho de 2013, o Brasil viveu a chamada Revolução
dos 20 centavos, como muitos denominaram as
manifestações que ocorreram por todo o país, em que o
estopim foi o aumento das passagens de ônibus na cidade
de São Paulo, que provocou passeatas, violência da polícia
e ampla divulgação dos protestos pelos diversos meios de
Copyright © by the paper's authors. Copying permitted only for
private and academic purposes. In: Proceedings of the V
Workshop sobre Aspectos da Interação Humano-Computador
na Web Social (WAIHCWS'13), Manaus, Brazil, 2013,
published at http://ceur-ws.org.
comunicação. Em ritmo acelerado, a utilização de
ferramentas da web 2.0, como o Facebook, foi crucial para
dar suporte à organização das convocações e angariar o
apoio estrangeiro aos cidadãos brasileiros. “Dia 17 de junho
foi um marco para a nova geração, ‘O Gigante Acordou’!
No Rio de Janeiro foram mais de 100 mil pessoas para as
ruas, em São Paulo, 65 mil, em Maceió saíram às ruas cerca
de 3 mil pessoas, em Brasília os manifestantes invadiram o
Congresso Nacional” [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref14">14</xref>
        ].
      </p>
      <p>
        Apesar da estranheza que tais clamores causem a alguns,
não é de hoje que os cidadãos de todo o mundo fazem
manifestações. [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref14">14</xref>
        ] cita como exemplos o Movimento
Negro nos Estados Unidos em 1964, a queda do Muro de
Berlim em 1989, o Apartheid em 1992; e no Brasil a
Diretas Já em 1984, o Impeachment de Collor em 1992 e a
Revolta da Vacina em 1904. O que esses movimentos tem
em comum? Juntos, eles reuniram milhares de pessoas para
reivindicar melhorias, fossem elas por direitos civis e
igualdade para os negros (Movimento Negro), fossem elas
para derrubar o presidente de um país (Impeachment do
Collor).
      </p>
      <p>
        Porém, é na forma de organização que reside a grande
diferença entre as manifestações de outrora e os
movimentos ocorridos no Brasil durante o mês de junho de
2013. Segundo fontes idôneas, como [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref18">18</xref>
        ], [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref19">19</xref>
        ] e outros
documentos históricos, a manifestação de centenas de
jovens de caras pintadas que foram às ruas pedir a queda do
presidente Collor, conhecida como o Movimento dos Caras
Pintadas, começou a ser delineada três meses antes de
ganhar as ruas. Eram mais de 10.000 estudantes, a maioria
deles de colégios da rede privada, convocados pela União
Brasileira de Estudantes Secundaristas através de 50.000
panfletos e 20.000 cartazes em que se lia “Anos Rebeldes,
próximo capítulo: Fora Collor, Impeachment Já”.
Embora ambas comunguem com ideias de mudanças, as
recentes manifestações, ao contrário do Movimento dos
Caras Pintadas, levaram apenas alguns dias para serem
organizadas e reunirem milhares de pessoas, graças ao
avanço das tecnologias e da web 2.0 e suas mídias sociais.
Para [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref14">14</xref>
        ], “os jovens saíram da internet e a usam para o
bem, a fim de propagar a velocidade da informação.
Reuniões estão sendo marcadas, marchas sendo combinadas
e ideias sendo amadurecidas”. Já [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref21">21</xref>
        ] afirma que muitas
formas de sociabilidade são decorrentes de interesses
mútuos, que conduzem estes jovens às atitudes sociais.
Com os meios eletrônicos ao seu dispor, as pessoas
passaram a receber e a interpretar a linguagem verbal ou
não verbal por meio das mídias [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref21">21</xref>
        ].
      </p>
      <p>
        Em se tratando de softwares sociais como Facebook,
Twitter e Google +, as formas de interação social
observadas são as mais diversas. [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref5">5</xref>
        ] afirma que o uso do
Facebook, por exemplo, aumenta muito quando uma
comunidade é subitamente confrontada com uma situação
de emergência ou crise inesperada. Isso pode ser percebido
pela profusão de postagens sobre um mesmo tema nos
perfis dos usuários do Facebook (cada qual com o seu modo
de expressão), ou do agendamento/organização de eventos
(manifestações) nacionais e internacionais nas diversas
páginas das fan pages, como a Anonymous, por exemplo.
Essas páginas e postagens permitem, segundo [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref5">5</xref>
        ], a
percepção situacional, que é a faculdade que o indivíduo
possui de apreender o que acontece em seu entorno a fim de
entender como a informação, eventos e suas próprias ações
vão afetar os acontecimentos futuros ou em andamento.
Para que a percepção situacional ocorra, a interação social é
fundamental. Com base nessa regra, [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref5">5</xref>
        ] afirma que “as
pessoas que trabalham em conjunto também desenvolvem
várias estratégias para coordenar seu trabalho com base na
percepção atualizada do que os outros estão fazendo”.
Para [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref21">21</xref>
        ], a interação social está relacionada ao universo
simbólico da linguagem, verbal ou não, sendo o elemento
principal de interação no mundo, estando à disposição de
todas as idades. Para a autora, essa interação ocorre à
medida que os indivíduos partilham entre si o senso comum
e o reconhecimento mútuo que estão no seu arsenal
sociocultural, apesar de não partilharem seu conhecimento
da mesma forma com todos.
      </p>
      <p>
        Assim, a interação social, que é a base para a percepção
situacional, pode gerar a inteligência coletiva nesses
ambientes. Segundo [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref4">4</xref>
        ], Inteligência Coletiva (IC) significa
grupos de indivíduos fazendo coisas coletivamente que
parecem inteligentes. No contexto de comunidade virtuais
e/ou do Facebook, a IC pode ser deduzida das informações
obtidas nas postagens dos usuários, os quais podem levar à
tomada de uma decisão.
      </p>
      <p>Considerando as interações sociais ocorridas no Facebook,
é objetivo deste trabalho empreender a análise quantitativa
de três páginas de eventos de organização de manifestos e
de duas fan pages, a fim de identificar o potencial desses
ambientes para interação entre indivíduos pertencentes a
comunidades. Como forma de interação, contabilizou-se o
número de curtidas, compartilhamentos e comentários que
cada postagem das páginas escolhidas recebeu em dado
período de tempo. Além disso, por meio de análises,
buscase indicativos de que as informações compartilhadas
possam ser úteis para gerar novos conhecimentos, como a
Inteligência Coletiva.</p>
      <p>Para a estrutura do artigo adotou-se a seguinte organização:
a seção 2 apresenta o referencial teórico acerca da temática;
a metodologia adotada para a coleta dos dados e os
resultados obtidos são apresentados na seção 3; já os
resultados são analisados na quarta seção; na sequência
encontram-se as limitações deste estudo; e por fim, são
feitas as considerações finais.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-3">
      <title>REFERENCIAL TEÓRICO</title>
    </sec>
    <sec id="sec-4">
      <title>Comunicação via Softwares Sociais</title>
      <p>
        No final de 2008, a cobertura da visita de um político à
Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura, foi
censurada na mídia, provocando protesto. Os estudantes,
insatisfeitos com a repentina perda de controle de um
importante meio de comunicação, recorreram à mídia
online para organizar um protesto off-line contra essa censura.
[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref13">13</xref>
        ] fizeram uma análise deste caso de mobilização política
através da internet, com ênfase particular nas redes sociais.
O estudo adotou entrevistas face a face para entender como
os organizadores do protesto e os participantes utilizaram as
diferentes mídias para realizar o evento. Foram levantadas
questões a respeito da importância de algumas
características específicas do Facebook para os ativistas a
fim de descobrir quais características contribuíram de fato
para a realização do protesto.
      </p>
      <p>Alguns entrevistados ressaltaram que o Facebook não é a
ferramenta ideal para propagar ideias. Opiniões importantes
foram observadas, tais quais:
a. “I don’t think Facebook is a quality comment thing.
People go there just for fun. TOC (The Online Citizen blog)
is a serious issue thing. So I left my post on TOC”.
[Estudante Masculino, 26 anos].
b. “I still think forums… they’re the best. Because when you
think about it, Facebook, it’s like groups.So people who are
invited to the group, who join the group, usually follow the
group’s agendaalready. There’s no varying viewpoint. In
forums,people will join and they will shoot their opinion
onit. They’re not obliged to follow the group”. [Participante
Feminina, 21 anos].</p>
      <p>A necessidade de uma plataforma mais séria e com pessoas
mais engajadas para a luta social se revelou durante os
estudos realizados.</p>
      <p>
        Já [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref11">11</xref>
        ] estudaram quais as propriedades que uma discussão
on-line deve possuir para ser interessante. O estudo destes
autores parte do princípio de que pessoas participam de
conversações quando julgam o tema interessante, ou leem
comentários de pessoas conhecidas e/ou observam uma
discussão em andamento entre duas ou mais pessoas. A
ideia fundamental era analisar a comunicação social que se
desprende a partir, por exemplo, de um vídeo no YouTube.
É notado que geralmente as pessoas retornam para um
vídeo já visto para reagir aos comentários de outros
usuários, e não para assistir ao vídeo por inteiro novamente.
Com o estudo, os autores concluíram: pessoas que se
encontram em uma discussão que julgam interessante
tendem a participar em futuras novas discussões; pessoas
tendem a procurar novos debates com temas relacionados
aos que já participam; se o tema é interessante este deve
lentamente proliferar-se para outras discussões.
      </p>
      <p>
        O estudo de [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref12">12</xref>
        ] foi motivado pela seguinte questão: que
fatores influenciam na participação individual em conversas
de mídias sociais? Discussões geradas a partir de conteúdo
postado por usuários são cruciais para a experiência de sites
como Facebook, YouTube e Flickr. Tentar entender a
motivação das pessoas para participar dessas discussões
tem um impacto significante em questões comerciais e
experimentais de análise de mídias.
      </p>
      <p>A aproximação dos autores foi de primeiramente identificar
aspectos chave das conversas em mídias sociais. Esses
aspectos incluem fatores intrínsecos (consciência social,
características e contexto da comunidade, reputação do
motivador do debate) e extrínsecos (contexto da mídia). Os
resultados alcançados mostraram que os fatores que
influenciam na participação dos usuários dependem do tipo
da mídia. Munidos destes resultados e de um conjunto de
dados de alguns sites sociais famosos, os autores
levantaram um conjunto de hipóteses que preveem a
participação coletiva nesses sites:




</p>
      <p>Hipótese 1: o grau de participação em uma conversa é
afetado pelo grau de consciência social dos
participantes envolvidos, incluindo a familiaridade
destes com os outros participantes da conversa,
feedback dos demais e diálogo mútuo;
Hipótese 2: a participação coletiva em uma mídia
social é afetada pelas características do contexto da
comunidade, incluindo seu tamanho, o quão ativo e
coeso os membros são e em qual grau estes são
mantidos ativos no decorrer do tempo;
Hipótese 3: a participação coletiva em uma mídia
social é afetada pela reputação do criador do objeto de
mídia compartilhado, incluindo seu grau de
participação na criação da mídia e sua autoridade no
contexto da comunidade;
Hipótese 4: a participação coletiva em uma mídia
social está relacionada com os dados a respeito do
objeto compartilhado, tais como sua classificação
(ratings), número de visualizações, tags, data de envio;
Hipótese 5: a conversação em si afeta a participação
em uma mídia social. As propriedades das conversas
geradas e o quão interessantes elas soam para os
usuários acabam impactando na vida da rede.</p>
      <p>Sendo as manifestações apoiadas pelo uso da web social
um episódio recente no Brasil, não foram encontrados
trabalhos relacionados a elas. Todavia, notícias jornalísticas
também serviram de insumo para reflexões e fonte de
dados.</p>
      <p>Sabe-se que por meio da participação coletiva, que ocorre
nos sites da web social, pode haver a disseminação de
conhecimentos e informações, podendo gerar o que se
chama de inteligência coletiva.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-5">
      <title>Inteligência coletiva</title>
      <p>
        Inteligência Coletiva, segundo [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref4">4</xref>
        ], significa grupos de
indivíduos fazendo coisas aparentemente inteligentes em
coletividade. O termo inteligência coletiva não é um
fenômeno novo e já está presente em outras áreas da ciência
como engenharia e biologia, por exemplo [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref3">3</xref>
        ]. A
comunicação pode ser considerada como uma atividade
fundamental para que esse grupos compartilhem
conhecimentos. Embora ela não ocorra de forma presencial,
ela deve ser incentivada e facilitada em ambientes nos quais
esses grupos de usuários estão interagindo, uma vez que um
dos problemas existentes na inteligência coletiva é a
dificuldade de comunicação e, por consequência, o
entendimento da informação [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2">2</xref>
        ].
      </p>
      <p>
        Comunidades virtuais que utilizam a inteligência coletiva
como fonte do conhecimento possuem diversas
características que, na opinião de [1] e [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2">2</xref>
        ], merecem
destaque as seguintes: a diversidade de opinião entre
participantes do grupo, as ferramentas existentes que
apoiam o compartilhamento de conhecimento, a
independência dos participantes e a descentralização, que
está ligada ao desenvolvimento distribuído de software.
Inteligência coletiva tem recebido um novo significado nos
últimos anos, especialmente com o avanço das aplicações
da web 2.0. A difusão dessas simples e fáceis tecnologias
permitem a interação entre os usuários [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref3">3</xref>
        ]. Atualmente, as
contribuições dos usuários são tratadas como fatores
valiosos para a inteligência coletiva. Usuários são
encorajados a contribuir com seu próprio conteúdo,
interagir com outros participantes e trocar conhecimento
[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2">2</xref>
        ]. Essas trocas de conhecimentos e interação entre
participantes são, principalmente, percebidas na web social.
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-6">
      <title>Web social – comunidade virtuais</title>
      <p>
        Comunidade virtuais, segundo [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref7">7</xref>
        ], são uma extensão das
comunidades do mundo real, contudo, não há relação direta
com a localização geográfica dos membros envolvidos, mas
a união de interesses em comum. Para [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref10">10</xref>
        ], comunidades
virtuais permitem e apoiam a comunicação entre pessoas
que estão em diferentes localidades e em horários
diferentes. [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref9">9</xref>
        ] define uma comunidade virtual como um
grupo de pessoas interagindo predominantemente em um
cyberspace para seus próprios interesses, para construção
de relacionamentos, transações e fantasias.
[8 apud 7] diz que uma comunidade virtual deve conter
quatro elementos: a definição clara do grupo, a interação
entre os membros, a ligação entre membros e a troca de
informação em um local comum. Com base nesta
proposição, pode-se dizer que algumas redes sociais, como
o Facebook, estruturam-se como comunidades virtuais.
Redes Sociais são sistemas de informação disponíveis
online que se tem desenvolvido amplamente, nos quais muitas
pessoas se relacionam e trocam informações, de diferentes
partes do mundo. Atualmente, há diversas redes sociais
disponíveis, cada qual com suas peculiaridades e
finalidades [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref20">20</xref>
        ], sendo o Facebook uma das mais utilizadas.
O Facebook é uma rede social em que os usuários podem
compartilhar fotos e vídeos, conversar com amigos,
publicar o que estão fazendo, curtir as postagens uns dos
outros, jogar, e ainda realizar diversas outras atividades. Em
nota publicada no site Folha de S. Paulo [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref15">15</xref>
        ], a rede social
já possui 1 bilhão de usuários. Segundo o jornal, o site
recebe 2,7 bilhões de “curtir”, 300 milhões de fotos e 2,5
bilhões de atualizações de status por dia – estas cifras nos
dão a dimensão do intenso fluxo de informações passantes
nessa rede
O Facebook apresenta diversas funcionalidades, entre elas,
podemos destacar a criação de fan pages e páginas de
organização de eventos. Uma fan page se assemelha muito
ao perfil de um usuário do Facebook, com a diferença que
não existe solicitação de amizade; nela os participantes do
Facebook simplesmente “Curtem” a página e, em
decorrência desta ação, passam a receber atualizações em
seu feed. Ainda é possível que os participantes dessas fan
pages interajam com a página da mesma forma que fazem
com um amigo dessa rede social.
      </p>
      <p>Já uma página de organização de evento destina-se a marcar
determinado evento. Seus organizadores podem entrar com
a descrição do evento, marcar a data, horário e local, e
enviar o convite do evento a seus amigos. Os convidados
para o evento têm três opções de resposta: ‘aceitar’,
‘recusar’ e ‘talvez’ (para indicar dúvida quanto ao
comparecimento ao evento). A partir do momento que o
usuário confirma a participação no evento, ele passa a
receber todas as notificações de acontecimentos da página
do evento, podendo, caso deseje, interagir com os demais
usuários.</p>
      <p>
        A interação social pode ocorrer de diversas formas e, entre
elas, [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref6">6</xref>
        ] destaca seis meios de como realizá-la: face a face,
telefone, videoconferência, bate-papo, e-mail e carta. No
âmbito do Facebook, como este é o meio em que a
interação social ocorre, o destaque é para a forma como a
interação pode ser exercida: curtir uma postagem,
compartilhar uma postagem, comentar uma postagem,
escrever uma postagem ou mensagens (bate-papo) para
alguém.
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-7">
      <title>PREPARAÇÃO DO CENÁRIO DE ESTUDO</title>
      <p>Uma análise quantitativa das postagens foi realizada, de
forma que fosse possível não só identificar os assuntos que
causaram maiores interações, como levantar o atendimento
mínimo de alguns requisitos durante essas interações tais
como o fornecimento de informações em nível de
inteligência coletiva e a aptidão para ser uma comunidade
virtual (fan page e página de evento).</p>
      <p>Para análise das postagens foram selecionadas três páginas
de eventos e duas fan pages. Respalda a escolha desse
corpus o fato de as duas estruturas do Facebook possuírem
propósitos diferentes, como os descritos na subseção “Web
Social – comunidade virtuais”.</p>
      <p>Os eventos analisados foram de manifestações que
ocorreram respectivamente em Brasília, Rio de Janeiro e
Londres na Inglaterra.
“Manifestation supporting the protesters in Brazil
against the abusive transportation fares – London”3.
18/06/2013 às 17h. Local: Londres.</p>
      <p>A escolha por Brasília e Rio de Janeiro se justifica por
serem cidades populosas e de importância no cenário
nacional, e por terem sido palco de acontecimentos
históricos durantes os manifestos ocorridos, como a tomada
do Congresso Nacional e a adesão maciça dos cariocas às
convocações protestativas. Num processo de escolha
aleatória, Londres foi a cidade eleita para perceber se há
conexão entre as interações que ocorrem entre os brasileiros
que vivem no Brasil e os que vivem no exterior. Convém
ressaltar que houve o desejo de analisar algum evento da
cidade de São Paulo, local onde as manifestações
iniciaramse, porém todas as páginas relacionadas a esses eventos não
estavam mais disponíveis.</p>
      <p>
        Quanto às fan pages, optou-se por analisar duas páginas da
linhagem Anonymous: Anonymous Brasil e Anonymous
Rio. A escolha dessas páginas deve-se à própria definição
desse grupo: “Anonymous é uma ideia de mudança, um
desejo de renovação. Somos uma ideia de um mundo onde
a corrupção não exista, onde a liberdade de expressão não
seja apenas uma promessa, e onde as pessoas não tenham
que morrer lutando por seus direitos” [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref22">22</xref>
        ]. Segundo
afirmação deste grupo de usuários, eles possuem o poder de
produzir, distribuir e trocar informações e para isso querem
um debate honesto, com todos aqueles que, assim como
nós, compartilham desse desejo de mudança. Em termos de
abrangência, a escolha natural foi a Anonymous Brasil e, no
quesito importância dentro do cenário nacional, optou-se
pela Anonymous Rio.
      </p>
      <p>Para esse estudo 1.414 postagens foram analisadas, sendo
1.329 oriundas de 3 páginas distintas de evento e 85 de
postagens de fan pages. Nas páginas de evento, não foram
considerados as postagens de confirmação de participação
no evento.
1 https://www.facebook.com/events/504106012976017
2 https://www.facebook.com/events/141852469345427/?ref=2
3 https://www.facebook.com/events/183382041822867/
Face a Face
Telefone
Videoconferência
Bate-papo
E-mail
Carta</p>
      <p>X
Tabela 1. Características alcançadas em cada forma de interação social.
e
d
a
d
i
l
i
b
i
t
i
d
u
A



As postagens analisadas referem-se a diferentes períodos do
mês de junho de 2013, em razão da ocorrência das maiores
concentrações de manifestações em território nacional e em
diversos outros países. Para os eventos escolhidos,
analisaram-se as postagens do dia anterior à data marcada
para a realização do evento até o dia seguinte ao da
manifestação, totalizando aproximadamente 48h de
postagens analisadas. Já para o Anonymous Brasil4, o
período foi de 13 a 30 de junho e para o Anonymous Rio5,
de 1 a 30 de junho.</p>
      <p>A análise das postagens foi feita manualmente, uma vez que
somente administradores dessas páginas possuem dados
mais compilados. Além disso, por mais que haja APIs
(Application Programming Interface) capazes de obter
algumas informações do Facebook, não é possível extrair o
assunto central de cada postagem. Para cada postagem foi
identificado o seu assunto central e coletado o número de
curtidas, compartilhamento e comentários. Caso algum
assunto se repetisse, o número de curtidas,
compartilhamento e comentários eram acrescidos com a
quantidade da nova postagem. Ao final da análise de cada
página fez-se o cruzamento dos assuntos abordados na
postagem e a quantidade de cada postagem, gerando-se
posteriormente uma tabela com as seguintes colunas:
número de curtidas, compartilhamento e comentários. Com
os dados tabelados foi possível identificar quais foram os
assuntos mais abordados e quais geraram mais interações.
Essas tabelas encontram-se no final deste artigo.</p>
      <p>
        Para este estudo, considerou-se o “curtir”, “compartilhar” e
“comentar”. Segundo [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref6">6</xref>
        ], essas formas de interação
possuem características que são dependentes da interação
existente entre duas ou mais pessoas. Na Tabela 1 (adaptada
de [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref6">6</xref>
        ]) podem ser vistas, além das diversas formas de
interação, as características que elas possuem, como
relacionadas a seguir.
      </p>
      <sec id="sec-7-1">
        <title>4 https://www.facebook.com/AnonBRNews 5 https://www.facebook.com/anonymousrio</title>
        <p>Copresença implica acesso aos mesmos artefatos para
dar suporte à conversação. A copresença também
implica referência e contexto compartilhados;
Contemporabilidade leva ao entendimento do mesmo
contexto ‘circadiano’ (os participantes sabem se é ou
não de manhã, se é hora do almoço);
Visibilidade e audibilidade fornecem ‘pistas ricas’ para
a situação;
 Simultaneidade e sequencialidade ajudam o usuário a
lembrar do contexto da elocução anterior enquanto está
recebendo a atual;
 Examinabilidade e revisabilidade são maneiras pelas
quais as pessoas podem examinar e revisar
cuidadosamente o que elas querem dizer, bem como ter
a oportunidade de dar sentido àquilo que está sendo
comunicado a elas.</p>
        <p>No Facebook, pode-se perceber que algumas dessas
características estão presentes: a contemporabilidade está
presente por meio do indicador de tempo que as postagens e
comentários possuem (‘duas horas atrás’, ‘ontem’, ‘há
poucos segundos’); a visibilidade e audibilidade se mostram
nas atualizações de status e nas vezes em que um usuário
“curte”, “compartilha” ou “comenta” alguma postagem; a
simultaneidade e sequencialidade são percebidas nas
sequências de comentários de uma postagem; a
examinabilidade está na condição de os usuários poderem
examinar aquilo com que desejam interagir ou postar; por
fim, a revisabilidade parcial, na permissão de edição de
comentários das postagens, mas não da postagem principal
em si.</p>
        <p>A seguir são apresentados os resultados obtidos neste
cenário de estudo.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="sec-8">
      <title>RESULTADOS</title>
      <p>A análise das 1.414 postagens permitiu a identificação dos
mais diversos assuntos. A grande maioria está relacionada à
política de modo geral, à violência dos policiais e aos
assuntos que repercutiram durante os dias dos manifestos,
como a PEC 37 e a Cura Gay. Na Tabela 2 são apresentadas
as quantidades de assuntos detectados e a quantidade de
postagens de cada página.</p>
      <p>Nas Tabelas 3, 4, 5, 6 e 7 apresentadas mais adiante, são
relacionados os assuntos mais “curtidos”, ou seja, os que
promoveram maior interação em cada página analisada. O
número entre parênteses ao lado de cada assunto significa a
quantidade de postagens que aborda esse mesmo assunto.</p>
      <sec id="sec-8-1">
        <title>Página analisada</title>
        <sec id="sec-8-1-1">
          <title>Evento em Brasília</title>
          <p>Evento no Rio de Janeiro
Evento em Londres
Anonymous Rio
Anonymous Brasil
Nas Tabelas 8, 9, 10, 11 e 12 foram relacionados os
assuntos mais comentados. Caso se considere o número de
comentários para ordenar os assuntos com maior número de
interações, os resultados das tabelas de 3 a 7 são alterados.
Como pode ser visto, as postagens relacionadas às páginas
de eventos não obtiveram nenhum compartilhamento. Vale
destacar que:


</p>
          <p>
            Na página do evento de Brasília, 13.526 usuários do
Facebook confirmaram presença no evento. No entanto,
segundo [
            <xref ref-type="bibr" rid="ref16">16</xref>
            ], houve entre 35 e 40 mil manifestantes
presentes no evento;
Na página do evento do Rio de Janeiro, 9.127 usuários
confirmaram presença no evento. O número real de
participantes dessa manifestação não foi obtido;
Em Londres, segundo [
            <xref ref-type="bibr" rid="ref19">19</xref>
            ], aproximadamente 1,5 mil
cidadãos participaram do manifesto, enquanto que a
página do evento no Facebook possui 8.537
confirmações de presença.
          </p>
          <p>Quanto as páginas Anonymous Rio e Anonymous Brasil,
eles possuem aproximadamente 160 mil e 216 mil,
respectivamente, de usuários do Facebook seguindo as
páginas, ou usuários que “curtiram” as páginas.</p>
        </sec>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="sec-9">
      <title>ANÁLISE DOS RESULTADOS</title>
      <p>Como pode ser depreendido dos resultados anteriores, nem
os eventos, nem as fan pages possuem um foco único em
comum. De certa forma, isso é um reflexo do que ocorreu
na prática. Ou seja, embora o aumento de R$ 0,20 nas
passagens de ônibus na cidade de São Paulo tenha sido o
gatilho dos recentes manifestos, em realidade não constitui
o foco. Com o passar dos dias, viu-se que diversos outros
problemas motivaram novos protestos relativamente à
qualidade dos serviços públicos prestados à população. A
ausência de foco aludida pode ser vista na Tabela 2, a qual
mostra a quantidade de assuntos tratados em cada página.
Este assunto foi um dos mais discutidos nas páginas dos
eventos: no de Londres foram apuradas 2 postagens
pedindo foco no manifesto; e no de Brasília contabilizou-se
8 postagens, as quais receberam 26 curtidas e 8
comentários.</p>
      <p>
        Os resultados apresentados na Tabela 2 revelam uma
diferença entre a quantidade de assuntos tratados nas
páginas de eventos e nas de fan page, possivelmente por
serem páginas com finalidades distintas. Além disso, para
as manifestações, cada cidadão possui uma forma diferente
de ver os fatos e diferentes formas de expressá-los, o que
[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref6">6</xref>
        ] explica ser consequência dos diferentes comportamentos
das pessoas. Portanto, outra explicação plausível para esse
contraste de quantidade de assuntos levantados nas páginas
dos eventos.
      </p>
      <p>Comparando as postagens dos eventos do Brasil com o
evento de Londres, nota-se uma grande diferença de
assuntos: enquanto os brasileiros residentes no Brasil
preferiram o debate em torno de assuntos como a violência
policial, a PEC 37 e a desorganização do evento; os
brasileiros residentes em Londres interagiram expressando
o desejo de participar do evento e/ou afirmando o orgulho
de ter participado do mesmo. Esta postura leva-nos a uma
reflexão sobre patriotismo, uma vez que os brasileiros que
estão no exterior demonstraram apoio aos manifestos que
ocorridos no Brasil.</p>
      <p>A quantidade de interações ocorridas nessas páginas
também chamou atenção. Em três páginas de eventos
analisadas, as postagens foram curtidas 2.371 vezes,
enquanto as postagens das fan pages conseguiram 64.639.O
mesmo ocorre com as quantidades de comentários: as
postagens dos eventos foram comentadas 1.572 vezes e as
da fan pages 11.258. Quanto aos compartilhamentos, as
postagens dos eventos não foram compartilhadas nenhuma
vez, por outro lado, as postagens das fan pages foram
compartilhadas 67.021 vezes.</p>
      <p>Essas diferenças talvez ocorram pelos seguintes motivos:
</p>
      <p>As fan pages têm uma alcançabilidade maior que as
páginas de eventos. Qualquer um pode curtir a fan
page e assim passar a interagir com ela; em
contrapartida, os eventos só permitem que o usuário
receba notificações após confirmação da presença no
evento. Além disso, a alcançabilidade das fan pages
talvez seja favorecida pelo fato de essas páginas serem
mais bem organizadas administrativamente do que as
páginas de eventos;

</p>
      <p>As fan pages e as páginas de eventos possuem número
de participantes diferentes, como já mencionado
anteriormente;
As fan pages analisadas foram criadas há muito mais
tempo que as páginas de eventos e, por esse motivo,
conseguiram alcançar uma boa reputação, mesmo que
não se saiba quem são os responsáveis por elas.</p>
      <p>Um problema constatado durante a análise das postagem do
evento do Rio de Janeiro também serve de indicativo para
mostrar porque as fan pages propiciam mais interações que
as demais páginas analisadas: há certa falta de organização
desses eventos via Facebook.</p>
      <p>Como a descrição do evento no Rio de Janeiro não estava
clara, diversos usuários escreveram pedindo confirmação
do horário do evento, totalizando 36 postagens com 37
curtidas e 150 comentários. Houve muitos pedidos de
alteração da descrição do evento, mas o Facebook não
permite tal funcionalidade quando o evento já está criado.
Essa limitação gerou diversas críticas por parte dos
organizadores dos eventos no Facebook.</p>
      <p>
        Como levantado por [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref12">12</xref>
        ], as cinco hipóteses refletem as
diferenças de interações entre os usuários das páginas de
eventos e das fan pages, principalmente as hipóteses 2 e 3.
Tais hipóteses deixam claro que o número de participantes,
bem como a organização existente nas fan pages,
influenciam na participação dos usuários.
      </p>
      <p>Uma dado curioso observado nos resultados apresentados,
refere-se à não relação entre o número de postagens de um
mesmo assunto e o número de interações dos usuários. Para
exemplo desse descompasso, tomemos as Tabelas 6 e 9:
quando o assunto foi “pedido de confirmação do horário da
manifestação”, houve 36 postagens, 37 curtidas e 150
comentários. Já o assunto “cura gay”, com apenas 2
postagens, obteve 39 curtidas e 67 comentários. Essas
diferenças demonstram indícios de que as interações
tendem a ser maiores quando o assunto debatido é algo
recente e alvo de fortes críticas, como era o caso da
polêmica Cura Gay.</p>
      <p>Assim, percebe-se que as páginas de eventos do Facebook
são muito mais para divulgação (apesar dos problemas de
organização) do que para fins interativos com padrão
crítico e inteligente. Se observarmos as informações
postadas nas fan pages que atuaram como formação da
inteligência coletiva, como mostra a Figura 1, fica clara a
importância que esses ambientes possuem na socialização
de informações. Na referida ilustração, vemos um pedido de
informação sobre detidos que gerou várias manifestações, e
dentre elas, merece destaque a de que há advogados
voluntários no local. Isso deixa claro que esses ambientes
podem informar em tempo real algumas situações e assim,
serem utilizadas para que providências possam ser tomadas.
Ao contrário das páginas de eventos, utilizadas para a
postagem de fotos e vídeos dos manifestos, é possível notar
nas duas fan pages analisadas a exição, em tempo real, de
várias postagens passando informações de utilidade pública
como os locais de ocorrência de confrontos com a polícia,
de algum outro manifesto ou, até mesmo, de um arrastão.
Como pode ser visto na Figura 2, há uma postagem sobre a
violência dos policiais no centro do Rio de Janeiro, que
gerou um comentário em que é feito um pedido de ajuda
para os alunos da UFRJ.</p>
      <p>
        Enquanto as postagens das Figuras 1 e 2 ajudam a orientar
os cidadãos quanto aos locais a serem evitados, as opções
“curtir”, “compartilhar” e “comentar” são maneiras de
disseminar uma informação, até mesmo entre os que não
participam da fan page. Como destacou [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref21">21</xref>
        ], a interação
social também se faz presente na vida social dos indivíduos
por meio da conversação e do silêncio, em que ambos
exercem o princípio da cooperação.
      </p>
      <p>
        Voltando às Figuras 1 e 2, o número de participantes que
confirmaram presença no evento do Facebook é uma
informação que pode ser utilizada pelo serviço de
inteligência da polícia para calcular o contingente de
segurança que deverá estar presente no manifesto. Além
disso, o acompanhamento das postagens relativas à
organização do evento no Facebook ajuda a equipe na
tomada de decisão das medidas de segurança cabíveis em
situações de risco. Contudo, [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref6">6</xref>
        ] ressalta que prever efeitos
sociais em grupos mediados por computador requer uma
análise cuidadosa para identificar as verdadeiras questões.
De acordo com o que foi exposto ao longo desta seção, as
páginas de eventos do Facebook não são uma boa maneira
para a discussão de ideias e tampouco para a geração
coletiva de conhecimentos, ao contrário das fan pages que,
por serem mais estruturadas e terem, de fato,
administradores, são propícias ao engajamento dos usuários
em torno de um tema. A empatia dos usuários cresce à
medida que o nível de qualidade das discussões se eleva, o
que contribui indiretamente para a promoção da boa
reputação da página. Em meio às interações da rede social
faz-se não só a disseminação do conhecimento, como a
construção do conhecimento, atendendo ao princípio básico
da inteligência coletiva.
      </p>
      <p>
        O Facebook, como toda rede social, prima pela
alcançabilidade, característica responsável por agregar
comunidades virtuais com fins políticos, por exemplo,
porque a base diversificada de usuários que abriga é o seu
diferencial. Além disso, o Facebook possui as
características das comunidades virtuais que utilizam a
inteligência coletiva como fonte do conhecimento,
conforme destacaram [1] e [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2">2</xref>
        ]: por meio dos comentários e
das postagens, percebe-se a diversidade das opiniões entre
os participantes do grupo; o “curtir”, “compartilhar” e
“comentar” são formas que apoiam o compartilhamento do
      </p>
      <sec id="sec-9-1">
        <title>Figura 1. Postagem com pedido de informação.</title>
        <p>
          Figura 2. Postagem com alerta da localidade que há violência por parte dos policiais.
conhecimento; os participantes são independentes para
postar e interagir; e estão dispostos em locais
geograficamente diferentes. Por fim, vale destacar que as
novas tecnologias de comunicação, como o Facebook, não
só buscam novas formas de relacionamento social, como
enfrentam alguns desafios, entre eles, o de manter a
consciência crítica social, política e econômica em face de
tantas informações vindas de diferentes pontos de emissão
[
          <xref ref-type="bibr" rid="ref21">21</xref>
          ].
        </p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="sec-10">
      <title>LIMITAÇÕES</title>
      <p>Apesar da não trivialidade da empreitada (falta de clareza
das postagens e frases soltas, descontextualizadas), este
trabalho analisou 1.414 postagens de cinco páginas do
Facebook,. Quando as postagens continham mais de um
assunto, adotou-se o critério de contabilização das
interações “curtir”, “compartilhar” e “comentar” para cada
assunto, uma vez que não era possível saber o motivo das
“curtidas” e “compartilhamentos”, além do que, não era o
intuito deste estudo analisar o conteúdo dos comentários.
Este trabalho não considerou as interações das fotos dos
manifestos postadas, em razão do grande número de
imagens postadas, principalmente nas páginas de eventos.
Todavia, destaque-se que foi observado que essa forma de
publicação propicia grande interação social.</p>
      <p>Reiterando, este trabalho teve caráter apenas quantitativo,
não tendo sido analisadas a qualidade das postagens e
tampouco a qualidade dos assuntos comentados. Como
trabalho futuro, pretende-se analisar qualitativamente os
comentários, a fim de perceber o valor dessas interações e
se elas, realmente, comportam-se como fontes confiáveis
para a inteligência coletiva.</p>
      <p>Ressalte-se ainda que as postagens foram analisadas
manualmente. Uma possibilidade futura é utilizar algum
sumarizador de linguagem natural para análise das
postagens, o que permitirá a comparação dos resultados das
análises automática e manual.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-11">
      <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
      <p>Nos últimos meses, o Brasil assistiu a uma série de
manifestações, focadas inicialmente na redução do preço
das passagens de ônibus, que, após os manifestos
assumirem maior proporção, viu este foco dispersar-se,
passando os manifestos a incorporar diversas reivindicacões
dos cidadãos. Pode-se dizer que um grande responsável
pelo crescimento desses manifestos pelo Brasil foi a
imprensa, que noticiou em diferentes mídias (televisiva,
on-line ou impressa; assim como na época do impeachment
do presidente Collor em 1992, quando indiretamente
exerceu um papel fundamental na organização das
manifestações de então. Apesar da tradição, a imprensa
perdeu seu lugar de principal veiculador de notícias para as
redes sociais, que foram as ferramentas utilizadas na
organização dos eventos que ocorreram no mês de junho de
2013 em todo o território nacional. Cidadãos usuários do
Facebook, por exemplo, foram se unindo conforme seus
interesses, mas com um foco central: um Brasil melhor.</p>
      <p>No contexto das manifestações, este estudo objetivou
analisar as interações sociais ocorridas no Facebook em
páginas de eventos e em fan pages. Tal análise evidenciou
que havia uma profusão de assuntos em discussão além dos
relacionados aos manifestos. Do exame dessas evidências,
apurou-se que nas páginas de eventos as interações entre
usuários foram poucas, se comparadas as das fan pages.</p>
      <p>Isso sugere que esse tipo de funcionalidade do Facebook
talvez careça de mais atenção, conforme seja a finalidade a
ser utilizada. Por outro lado, as fan pages propiciaram mais
interações, indicando que esse tipo de ferramenta pode ser
utilizado inclusive como comunidade virtual para fins
políticos.</p>
      <p>Analisar as postagens e identificar os assuntos tratados não
é uma atividade trivial, pois cada usuário tem uma forma de
se expressar e nem sempre são claros no que gostariam de
dizer. Além disso, tem-se a questão da confiabilidade das
informações postadas. Dessa forma, caso as opiniões de
uma rede social tenham que ser consideradas pelo governo,
as análises não seriam simples de serem estruturadas, em
razão da grande liberdade de expressão que há nesses
ambientes virtuais.</p>
      <p>Se por um lado a duvidosa qualidade dos textos das
postagens não tira o valor de todo este movimento, de
outro, serve para alertar para a necessidade de termos
ambientes mais estruturados para a coleta de opiniões dos
cidadãos. Todavia, há que se ter cuidado com quem seria o
responsável por um ambiente como este, pois se ele estiver
em poder do governo, os cidadãos talvez não participem tão
ativamente quanto participam das redes sociais.</p>
      <p>Tabela 5. Relação dos cinco assuntos mais “curtidos” na página do evento de Brasília</p>
      <sec id="sec-11-1">
        <title>ANONYMOUS BRASIL</title>
      </sec>
      <sec id="sec-11-2">
        <title>Assuntos por número de postagens</title>
        <p>Vídeo sobre o servidor derrubado do site Copa 2014 (1)
Vídeo sobre Pelé (1)
Vídeo contra a Globo (1)</p>
        <sec id="sec-11-2-1">
          <title>Vídeo sobre a violência dos policiais (3) Vídeo sobre o manifesto (5)</title>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="sec-11-3">
        <title>ANONYMOUS RIO</title>
      </sec>
      <sec id="sec-11-4">
        <title>Assuntos por número de postagens</title>
        <p>Crítica contra a quantidade de manifestantes (1)</p>
        <sec id="sec-11-4-1">
          <title>Na rede Globo (1)</title>
          <p>Localização de pontos de violência dos policiais na manifestação (6)
Violência policial (8)</p>
        </sec>
        <sec id="sec-11-4-2">
          <title>Incentivo à participação na manifestação (7)</title>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="sec-11-5">
        <title>BRASÍLIA</title>
      </sec>
      <sec id="sec-11-6">
        <title>Assuntos por número de postagens</title>
        <p>Liberdade de expressão (10)
Incentivo à participação (19)
Vídeos sobre o manifesto em BSB (19)
Vandalismo (21)
Sugestão para as manifestações (52)</p>
      </sec>
      <sec id="sec-11-7">
        <title>Curtir</title>
        <p>1381
1655
2398
3924
21837</p>
      </sec>
      <sec id="sec-11-8">
        <title>Curtir</title>
        <p>2396
2439
2610
3640
5424
Tabela 4. Relação dos cinco assuntos mais “curtidos” na fan page Anonymous Rio</p>
      </sec>
      <sec id="sec-11-9">
        <title>LONDRES</title>
      </sec>
      <sec id="sec-11-10">
        <title>Assuntos por número de postagens</title>
        <p>Desejo em ter participado do evento (2)</p>
        <sec id="sec-11-10-1">
          <title>Quando o próximo evento ocorrerá (10) Divulgação sobre o evento em Londres (16) Orgulho do manifesto/elogio ao manifesto (32) Vídeos sobre o evento em Londres (38)</title>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="sec-11-11">
        <title>LONDRES</title>
      </sec>
      <sec id="sec-11-12">
        <title>Assuntos por número de postagens</title>
        <p>Vídeo Anonymous (5)
Divulgação de algum manifesto/evento no Facebook (10)
Quando o próximo evento ocorrerá (10)</p>
        <sec id="sec-11-12-1">
          <title>Orgulho do manifesto/elogio ao manifesto (32) Vídeos sobre o evento em Londres (38)</title>
          <p>Tabela 7. Relação dos cinco assuntos mais “curtidos” na página do evento em Londres
Tabela 8. Relação dos cinco assuntos mais “comentados” na página do evento em Londres</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="sec-11-13">
        <title>Curtir</title>
        <p>26
53
62
168
370</p>
        <p>Tabela 10. Relação dos cinco assuntos mais “comentados” na página do evento de Brasília</p>
        <sec id="sec-11-13-1">
          <title>Na rede Globo (1)</title>
        </sec>
        <sec id="sec-11-13-2">
          <title>Divulgação de evento (6)</title>
          <p>Localização de pontos de violência dos policiais na manifestação (6)
Incentivo à participação na manifestação (7)</p>
        </sec>
        <sec id="sec-11-13-3">
          <title>Violência policial (8)</title>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="sec-11-14">
        <title>ANONYMOUS BRASIL</title>
      </sec>
      <sec id="sec-11-15">
        <title>Assuntos por número de postagens</title>
        <p>Vídeo sobre Dilma quando esta foi vaiada (1)
Vídeo contra a Globo (1)</p>
        <sec id="sec-11-15-1">
          <title>Vídeo sobre a violência dos policiais (3)</title>
        </sec>
        <sec id="sec-11-15-2">
          <title>Vídeo sobre Pelé (1)</title>
          <p>Vídeo sobre o manifesto (5)
2439
1913
2610
5424
3640</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="sec-11-16">
        <title>Curtir</title>
        <p>1164
2398
3924
1655
21837</p>
      </sec>
      <sec id="sec-11-17">
        <title>ANONYMOUS RIO</title>
      </sec>
      <sec id="sec-11-18">
        <title>Assuntos por número de postagens</title>
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        <title>Curtir</title>
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        <title>Compartilhar</title>
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        <title>Comentar</title>
        <p>Tabela 11. Relação dos cinco assuntos mais “comentados” na fan page Anonymous Rio
463
2387
1663
1661
748
152
403
445
460
1763</p>
        <p>Tabela 12. Relação dos cinco assuntos mais “comentados” na fan page Anonymous Brasil</p>
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