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    <article-meta>
      <title-group>
        <article-title>1Prefeitura Municipal de Belo Horizonte 2Escola de Ciência da Informação. Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) 3Departamento de Ciência da Computação, (UFMG)</article-title>
      </title-group>
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        <contrib contrib-type="author">
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          <string-name>Wagner Meira Jr.</string-name>
          <email>Meira@dcc.ufmg.br</email>
        </contrib>
      </contrib-group>
      <fpage>171</fpage>
      <lpage>176</lpage>
      <abstract>
        <p>Resumo. Mineração de dados(MD) por regras de associação tende a gerar um número intratável de regras prejudicando a abrangência de sua aplicação. Para solucionar esse problema propõe-se o uso de ontologias nas etapas de pré e pós-processamento no suporte às tarefas de MD. Além disso, o artigo ressalta que organizações humanas exigem as noções de possibilidade, subjetividade e interpretação, contrastantes com as noções de necessidade, objetividade e explicação, úteis em domínios de ciências naturais. Tais exigências demandam novas perspectiva em ontologias e MD, normalmente abrigadas pela computação suave.</p>
      </abstract>
    </article-meta>
  </front>
  <body>
    <sec id="sec-1">
      <title>1. Introdução</title>
      <p>Ontologias e mineração de dados (MD) são áreas, em geral, construídas com
base nas ciências naturais (CN). Lidam com as noções de necessidade, objetividade e
explicação, em ciências físicas, químicas e biológicas. Entretanto, em organizações,
fenômenos humanos prevalecem, demandando metodologias de ciências humanas (CH)
que, por sua vez, exigem as noções de possibilidade, subjetividade e interpretação. Tais
noções já são abrigadas por tecnologias humano-cêntricas na perspectiva da computação
suave. Assim, com base em sistemas difusos, propõe-se utilizar ontologias no suporte à
atividade de MD nas fases de pré e pós-processamento. Agrega-se então valor
conceitual, associado ao conhecimento de domínio, e propicia-se suporte semântico no
processamento dos dados. O analista é auxiliado na explicação e interpretação das
regras obtidas da MD. Inicialmente o artigo introduz noções de MD. A partir da análise
das tarefas de prescrição, predição, descrição, explicação e interpretação, conforme
abordados em Domingues (2004), são discutidos métodos que devem ser incorporados a
ontologias em contextos humano-sociais, típicos de questões surgidas em economia,
administração, contabilidade, direito, etc.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-2">
      <title>2. Mineração de Dados</title>
      <p>A MD é uma das etapas da Descoberta de Conhecimento em Bases de Dados.
É um processo de identificação de padrões novos, potencialmente úteis e
compreensíveis, em um conjunto de dados. Esses padrões podem se constituir, dentre
outros, em regras de associação, ou seqüências temporais que permitam revelar
relacionamentos não aleatórios entre atributos de variáveis. Em especial, o volume
excessivo de dados justifica a MD para a descoberta de padrões que possam revelar
informações úteis à tomada de decisão.</p>
      <p>A MD lidará com questões de ordem computacional e de usabilidade. Ter-se-á
de lidar com a confiabilidade dos dados, a geração de resultados excessivos, autonomia
e conhecimento do negócio para a análise dos resultados, desempenho e produtividade,
facilidade de uso e utilidade.</p>
      <p>Há uma variedade de paradigmas de mineração de dados. Objetivando nossa
análise, consideramos mais interessante a taxonomia que realça a existência de modelos
supervisionados e não-supervisionados.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-3">
      <title>Figura 1.</title>
      <p>
        Taxonomia de
paradigmas de
mineração de dados
        <xref ref-type="bibr" rid="ref3 ref8">(Maimon e Rokach,
2005, p. 7)</xref>
        .
      </p>
      <p>Em modelos supervisionados, como o próprio nome já diz, o processo de
detecção de padrões é supervisionado. As classes à qual cada padrão possa ser
pertinente é pré-definida. São modelos prescritivos. Além disso, são preditivos no
sentido de serem mais adequados a revelar tendências.</p>
      <p>Já em modelos não-supervisionados, não se conhecem a priori classes às quais
os padrões possam ser pertinentes. São modelos de ênfase descritiva, no sentido de
serem mais adequados a apresentarem descrições, relevando características dos dados
minerados.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-4">
      <title>4. Peculiaridades das ciências humanas</title>
      <p>
        A análise científica de fenômenos humano-sociais deve articular dialeticamente
os níveis descritivo, explicativo e interpretativo. Como apresentado na Figura 1, a MD
subdivide-se em dois ramos: mineração supervisionada e não-supervisionada. A
supervisão está associada à atividade de previsão, a partir de conhecimentos
explicitamente pré-estabelecidos (prescrição), descobrem-se fatos novos, mas de algo
que já se conhecia. A não-supervisão é associada à atividade de descrição. Não há
conhecimento prévio. Busca-se a descoberta de associações a serem descritas,
conhecimento útil. Em mineração supervisionada, ontologias, podem ser vistas tanto
para representar conhecimento previamente adquirido, necessário à previsão, quanto
para descrever conhecimento útil em minerações preditivas posteriores. Na mineração
não-supervisionada, ontologias suportam a análise dos padrões descritivos obtidos no
processo de mineração, tarefas de explicação e interpretação. A ênfase na explicação é
típica das CN, enquanto na tarefa de interpretação é típica das CH
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2">(Domingues, 2004, p.
103 a 135, em especial, p. 116 e p. 134-135)</xref>
        .
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-5">
      <title>4.1. Tensão entre a objetividade inalienável versus a subjetividade inexorável</title>
      <p>Ao se buscar referências para o desenvolvimento ontologias específicas para
domínios humano-sociais, de imediato, depara-se com questões de fundamentação. O
método em CH é ainda questão aberta. Seus padrões de cientificidade encontram-se em
busca de uma consolidação a partir de distintas vias. Seus fenômenos resistem às
exigências da objetividade. No cerne dos dilemas do método, na busca inalienável da
objetividade, encontra-se a dificuldade de objetivação da significação dos fatos sociais e
de lidar com a subjetividade inerente aos fenômenos humano-sociais. Se a objetividade
é a meta inalienável, a subjetividade é elemento inexorável que se imiscui nos fatos, nos
fenômenos, e na práxis das CH.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-6">
      <title>4.2. Descrição</title>
      <p>
        Um mesmo fato, ou fenômeno, pode ser descrito de diferentes maneiras e a
descrição nunca será completa. Ela depende da granularidade observada, e da
intencionalidade do observador. A intencionalidade condiciona a granularidade. Mesma
coisa nas CN. Peculiar das CH é que, além dos aspectos objetivos dos comportamentos
humanos, a descrição deverá debruçar-se sobre um conjunto de elementos subjetivos
(intenções, sentimentos, consciência, valores e fins visados pelos agentes humanos)
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2">(Domingues, 2004, p. 107)</xref>
        . As CN debruçam-se sobre causas, descrição e explicação
causal dos fatos. As CH estendem esse leque para buscar a descrição e explicação das
motivações, razões e crenças. A descrição dever-se-á, necessariamente, lançar seus
elementos à tarefa interpretativa que, em CH, raramente já estará encapsulada pela
tarefa explicativa.
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-7">
      <title>4.3. Explicação</title>
      <p>
        Com base nos elementos descritivos há distintas formas de explicação
possíveis: genéticas, estruturais, funcionais, finais e, dentre outras, causais. A
explicação causal é considerada a forma de explicação por excelência
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2">(Domingues,
2004, p. 116)</xref>
        . Entretanto, a questão da causalidade, assim como a questão da vaguidade,
é assunto de intensos debates. A causalidade aproxima-se da vaguidade. Assim como
ela, a noção de causalidade tem sido útil para fins de análise e, como a vaguidade, ao
invés de ser abandonada, ressurge revigorada nas últimas décadas. Uma mesma coisa
pode ser causa de efeitos contrários; pode-se identificar uma causalidade recíproca ou
circular; pode ocorrer dependência mútua, ação, ou influência de causa e efeito e, ainda,
causalidade freqüentemente é confundida com condicional lógica. Conclui Domingues
(2004, p. 119) que o importante é a análise causal depender da consideração de um
contexto mais amplo, que se decide em outro nível de análise: a interpretação.
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-8">
      <title>4.4. Interpretação (compreensão)</title>
      <p>Muitos pretendem que a interpretação já se decide no nível da explicação, e
não é senão um de seus aspectos. Entretanto, para Domingues, é o caso de distinguir
uma da outra, considerando que a explicação incide sobre os fatos, ou coisas. Já a
interpretação envolve a significação, o sentido deles. Portanto, a interpretação irá
introduzir as unidades significativas de análise, como as hipóteses, os modelos (tipos
ideais), as postulações de sentido, e assim por diante (Domingues, p. 119-120). Em CH,
a candidata de ter a primazia no método e de conduzir a análise é a tarefa interpretativa.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-9">
      <title>4.5. Inter-subjetividade</title>
      <p>A subjetividade é crucial na análise do conhecimento em domínios de CH.
Anscombe considera não só a subjetividade de um indivíduo, mas a de coletividades
inteiras. Desafio maior, é a inter-subjetividade; comunicação das consciências
individuais. Na construção de ontologias, a inter-subjetividade é tratada. Ontologias
expressam consenso.</p>
      <p>Outro lado da questão é o uso de ontologias na etapa de decifração do sentido
intersubjetivo na tarefa da interpretação. A verdade a ser considerada advirá da
convicção de verdade recolhida pela análise na comunidade. Em CI e CC, a demanda
pela inter-subjetividade é eventual. Mas tal demanda é sentida nas comunidades de
inteligência onde a inter-subjetividade é regra. Distintos analistas são confrontados
numa análise conjunta que traduza a convergência das análises individuais.</p>
    </sec>
    <sec id="sec-10">
      <title>5. Quais fundamentos em ontologias demandam as ciências humanas?</title>
      <p>Peculiaridades das CH em relação as CN são: primazia da interpretação sobre a
explicação; importância e necessidade de subjetividade em conjunto com a objetividade;
flexibilização da noção de necessidade (lei) para a noção de possibilidade. Ao buscar
agregar conhecimento de domínio, via ontologias, no suporte à MD em contextos
organizacionais, impõe-se a nós duas questões: (1) As ontologias fundamentais, ou de
alto nível, referências na construção de novas ontologias, lidam com peculiaridades
atinentes ao domínio de CH? (2) Como ontologias poderiam incorporar as noções de
subjetividade e possibilidade, suportando a tarefa de interpretação? Não examinaremos
essas questões, mas teceremos a seguir alguns comentários, indicações e avaliações
iniciais que poderão nortear avaliações mais aprofundadas no futuro.
5.1. Ontologias Fundamentais1.</p>
      <p>
        DOLCE, a SUMO e a BFO explicitam suas orientações filosóficas.
Consideram universais, particulares, ou tropos, seu compromisso ontológico, entidades
no tempo e no espaço, e como se relacionam.
        <xref ref-type="bibr" rid="ref9">Oberle et. al (2007</xref>
        ) avalia as citadas
acima, com base em quatro pares de escolhas ontológicas. Descritiva, ou revisionária
(prescritiva); multiplicativa, ou reducionista; atualista, ou possibilista; e endurante, ou
perdurante. Considerando o subjetivismo e a noção de possibilidade inerentes às CH,
avalia-se que escolher o descritivismo, o multiplicativismo e o possibilismo permite
melhor tratar dessas peculiaridades. O descritivismo, ao considerar o que a realidade é, e
não como deveria ser, está apto a tratar da linguagem natural, do senso comum, da
vaguidade, de objetos não físicos, da diferenciação entre objetos e processos etc. O
multiplicativismo por considerar a diferenciação de entidades a partir do não
compartilhamento de propriedades fundamentais, também está mais próximo ao senso
comum. O possibilismo, por levar à modalidade que faz uso da possibilidade.
      </p>
      <p>
        Comenta-se brevemente as três ontologias. Ver detalhes em Sreejith (2008). A
DOLCE adota uma metafísica descritiva, baseada em Strawson2, em oposição à
metafísica prescritiva, e considera aspectos lingüísticos e de engenharia cognitiva.
Procura incorporar em sua estrutura elementos que permitam lidar com artefatos
cognitivos, marcas culturais e convenções sociais (um tipo de metafísica cognitiva).
Inspira-se na noção de deep background desenvolvida por
        <xref ref-type="bibr" rid="ref11">Searle (2002</xref>
        , Intencionality).
A SUMO vai na mesma direção, classificando atos intencionais3, orientações, interações
sociais
        <xref ref-type="bibr" rid="ref13">(Sreejith, 2008, p. 66)</xref>
        .
        <xref ref-type="bibr" rid="ref9">Oberle et. al (2007</xref>
        ), em solução híbrida (SWIntO),
integra a DOLCE e a SUMO. Acomoda resistências à DOLCE, abstrata demais, e à
SUMO de axiomatização árdua. A DOLCE teria uma proposta mais abrangente, já a
SUMO teria uma taxonomia mais rica. Por fim a BFO distingue entre dois tipos de
entidades: substanciais ou continuantes, e processuais, ou ocorrentes. Smith considera a
BFO um subconjunto de DOLCE, adequada ao tratamento de instâncias, tipos e
relações. Mais adequada que a SUMO, que, segundo esse autor, não apresenta um
tratamento claro de relações entre instâncias versus relações entre tipos (Barry Smith,
Upper Level Ontologies). Em CH, a DOLCE e a SUMO já são ao menos parcialmente
aptas a lidar com as peculiaridades apresentadas anteriormente, enquanto que a BFO vai
na contramão das considerações ontológicas envolvendo aspectos do senso comum, da
linguagem natural, da consideração de atos intencionais, vaguidade, causação mental
etc. Consideramos que, a despeito dos riscos, é inevitável, para o bem da própria
objetividade científica, buscar lidar e tratar de questões que se nos impõem por sua
força e penetrabilidade em amplos domínios, envolvendo aspectos cognitivos, tais como
a vaguidade, a subjetividade, a intenção e a causação mental. A BFO não pretende
alcançar domínios das CH. Ver debate recente
        <xref ref-type="bibr" rid="ref12 ref4">(Merril, 2010a e 2010b versus Smith e
Ceusters, 2010)</xref>
        .
1 Foundational Ontologies, por vezes traduzidas como ontologias “fundacionais”, um
neologismo. Também são chamadas de ontologias de alto nível (upper ontologies).
2 STRAWSON, P.F.. “Individuals. An Essay in Descriptive Metaphysics. Routledge, 1959.
3 http://virtual.cvut.cz/ksmsaWeb/browser/print/3%23IntentionalProcess e http://swserver.cs.vu.nl/partitioning/SUMO/
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-11">
      <title>5.2 A emergência da computação suave, granular e humano-cêntrica</title>
      <p>
        A insuficiência das soluções focadas em detalhes técnicos como eficiência de
algoritmos, vem levando à consideração da usabilidade, conhecimento do domínio e
capacidade de interpretação de resultados. A computação suave e granular se associa à
uma abordagem humano-cêntrica, flexível e com foco na interação do homem com a
máquina. Considerando-se essas três abordagens convergentes – computação suave,
granular e humano-cêntrica – destacam-se as soluções em sistemas difusos, redes
neurais e algoritmos genéticos. Mitra (2002) dá uma visão da literatura disponível sobre
MD. Sistemas difusos preocupam-se com a natureza amigável ao usuário
        <xref ref-type="bibr" rid="ref10">(Pedrycz e
Gomide, 2007, p. xvii)</xref>
        . Sistemas difusos podem ser integrados com outras ferramentas
de computação suave levando à geração de sistemas mais poderosos, com aplicações em
reconhecimento de padrões, processamento de imagens, e inteligência de máquina
        <xref ref-type="bibr" rid="ref3 ref8">(Mitra e Pal, 2005)</xref>
        . Nesse contexto, confirmando a emergência dessas abordagens, vem
surgindo estudos que aplicam tecnologias de sistemas difusos a MD e ontologias.
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-12">
      <title>6. Conclusão</title>
      <p>As ferramentas computacionais de MD, por si só, não garantem o sucesso em
ambientes organizacionais. Esses ambientes sócio-humanos possuem peculiaridades e
exigem abordagens distintas daquelas associadas às CN. Ao invés do caráter de lei
associada à noção de necessidade, há a noção de possibilidade; ao invés da ênfase na
explicação, há a ênfase na interpretação, e ao invés do expurgo da subjetividade, há a
sua concomitante consideração, não em contraposição, mas em cooperação com a
objetividade científica. O surgimento de novas abordagens apresentadas traz novas
metodologias que permitem tratar as peculiaridades dos domínios sócio-humanos.</p>
    </sec>
  </body>
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