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      <title-group>
        <article-title>Práticas de Linguagem e Design: algumas questões de usabilidade no contexto da web social</article-title>
      </title-group>
      <contrib-group>
        <contrib contrib-type="author">
          <string-name>Brasil ffreire@unicamp.br</string-name>
          <xref ref-type="aff" rid="aff0">0</xref>
        </contrib>
        <aff id="aff0">
          <label>0</label>
          <institution>André Constantino da Silva Instituto de Computação (IC) Núcleo de Informática aplicada à Educação (NIED) UNICAMP São Paulo</institution>
          ,
          <country country="BR">Brasil</country>
        </aff>
      </contrib-group>
      <abstract>
        <p>RESUMO Este artigo discute as influências recíprocas entre práticas de linguagem e decisões de design. Foram analisados dois dados extraídos de situações reais de interação provenientes de um curso a distância e de uma rede social, respectivamente, com foco nas operações discursivas usadas pelos interlocutores para contornar restrições do design das ferramentas utilizadas. A hipótese que norteia a discussão é a de que estas operações linguísticas, que aparecem em certos contextos e não em outros, podem ser vistas como indícios de problemas de usabilidade. Para corroborar esta hipótese, foram analisados os contextos em que as operações aparecem com base nas heurísticas de Nielsen. linguagem, tecnologia, softwares sociais, usabilidade.</p>
      </abstract>
    </article-meta>
  </front>
  <body>
    <sec id="sec-1">
      <title>-</title>
      <p>
        INTRODUÇÃO
Dados publicados em 2009 pelo Ibope/Nielsen[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref18">19</xref>
        ]
mostram que entre os meses de setembro e dezembro de
2009 o número de brasileiros com mais de 16 anos que
utilizam a internet aumentou em 1,2 milhão: de 66,3
milhões passamos para 67,5 milhões em apenas 3 meses. O
levantamento mostra ainda que a maior parte dessa
população (86,3%) acessa algum tipo de “comunidade”:
redes sociais, blogs, bate-papos, fóruns e sites de
relacionamento[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref19">20</xref>
        ]. A internet que originalmente não tinha
a pretensão de ser um “canal de comunicação” é hoje, sem
dúvida, um grande espaço de/para a interação entre as
pessoas e, portanto, um espaço para a emergência de
diversas práticas de linguagem.
      </p>
      <p>Diante deste fenômeno muitos pesquisadores têm se
dedicado ao estudo de práticas de linguagem mediadas pelo
LEAVE BLANK THE LAST 2.5 cm (1”) OF THE LEFT
COLUMN ON THE FIRST PAGE FOR THE</p>
      <p>
        COPYRIGHT NOTICE.
computador, com diferentes propósitos - educacionais,
linguísticos, sociais, psicológicos - focalizando diferentes
aspectos (não excludentes entre si, necessariamente):
letramento digital, inclusão/exclusão digital/social, gênero,
textualidade hipermidiática, entre outros [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref2 ref26 ref3 ref31 ref31 ref33 ref38 ref4 ref5">1,3,4,5,6,
32,27,32,34,39</xref>
        ].
      </p>
      <p>
        Nosso propósito, no entanto, toma como lugar de reflexão a
interação que se estabelece entre sujeito/interface
computacional que possibilita, por sua vez, a prática de
linguagem que se dá por seu intermédio, com o objetivo de
como um pode interferir no outro. Em outras palavras,
pretendemos analisar como uma determinada prática de
linguagem influencia o design de uma aplicação e,
inversamente, como o design de uma determinada aplicação
pode influenciar a prática de linguagem. Por trás dessa
análise está o pressuposto de que o design de uma
determinada aplicação tem origem em uma determinada
prática social e que seu uso, por sua vez, desencadeia novas
práticas sociais, exemplo disso são as redes sociais.
Para esta discussão consideraremos aplicações da web
social, mais especificamente, situações reais de interlocução
no contexto educacional e no de entretenimento (redes
sociais). Os exemplos apresentados serão, primeiramente,
analisados do ponto de vista linguístico para, em seguida,
serem discutidos a partir das heurísticas de usabilidade de
Nielsen [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref27">28</xref>
        ] com o objetivo de justificar decisões de design
e/ou justificar estratégias linguísticas encontradas pelos
usuários para contornar as dificuldades que com as quais se
depararam no uso das aplicações.
      </p>
      <p>A primeira parte deste texto apresenta os pressupostos
teóricos que fundamentam nosso entendimento a respeito
de práticas de linguagem bem como o conceito de
usabilidade. Em seguida, apresenta as aplicações utilizadas
nos dados analisados nas duas seções subsequentes que
tratam da relação prática de linguagem e design e seus
efeitos na usabilidade. Por último, apresenta algumas
considerações finais.</p>
      <p>
        FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Nossa análise se baseia, por um lado, em conceitos da área
da Neurolinguística Discursiva ou ND [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref6 ref7">7,8</xref>
        ] e, por outro,
em conceitos da área de Interação Humano-Computador ou
IHC [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref30 ref32">31,33</xref>
        ]. A ND, em sua origem1, articula teorias da
linguagem desenvolvidas por diferentes domínios da
Linguística: Análise do Discurso, Aquisição de Linguagem,
Pragmática, Teoria da Enunciação, e se propõe a analisar os
processos interacionais da linguagem, as relações entre os
processos cognitivos e a linguagem, as condições de
produção do discurso, lidando, assim, com a relação
linguagem/cérebro/mente. Não é de se estranhar, assim,
que a ND tenha interesse em estudar as práticas de
linguagem mediadas pelo computador, especialmente pelo
fato de os enunciados serem produzidos em meio a
condições especiais de produção, entre elas, a presença de
uma interface. Assim, a ND aglutina ideias e conceitos de
vários autores, sobretudo Luria[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref24 ref25">25, 26</xref>
        ], Vygotsky
[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref35 ref36 ref37">36,37,38</xref>
        ], Bakhtin[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref1">2</xref>
        ], Jakobson [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref20 ref21">21,22</xref>
        ], Freud
(neurologista)[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref16">17</xref>
        ], mantendo como elemento unificador a
contextualização histórica da linguagem e do
cérebro/mente. Resumidamente, três pressupostos são
importantes para os nossos propósitos: (i) a noção
abrangente de linguagem [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref9">10</xref>
        ] como atividade significativa
(nos níveis cognitivo, intersubjetivo e social), como lugar
de interação humana e de interlocução em meio às
contingências socioculturais que orientam e regulam a vida
em sociedade; (ii) a contextualização histórica dos
processos linguísticos e cognitivos; (iii) a relação de
constitutividade entre linguagem e processos cognitivos
percepção, atenção, memória, práxis, raciocínio - em que a
primeira tem papel organizador e regulador em relação a
tais processos [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref24 ref25 ref36 ref37 ref8">9,25,26,37,38</xref>
        ].
      </p>
      <p>
        Com base em tais pressupostos, entendemos as práticas de
linguagem mediadas pelo computador como ações que se
fazem com e sobre a língua[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref17 ref6">7,18</xref>
        ] em meio a contingências
socioculturais; como um duplo exercício de linguagem: ao
interpretar a interface e ao usar a interface para produzir
sentido [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref10 ref11 ref12 ref13 ref14 ref15">11,12,13,14,15,16</xref>
        ]. Vista sob esse prisma, pode-se
postular que a interação sujeito/interface é constitutiva de
toda e qualquer prática de linguagem mediada pelo
computador (e deve ser aprendida) mesmo quando se
naturaliza a ponto de fazer crer que a interface não (mais)
afeta aquela prática: “las interfaces, como cualquier otto
lugar donde se verifican procesos semiósicos, nunca son
neutrales o ingenuas” [33, p. 74]2.
      </p>
      <p>
        Assim, o uso de tecnologias de informação e comunicação
e, em particular, a interação sujeito/interface
1 Esta área de estudo se inicia no Instituto de Estudos da
Linguagem da UNICAMP com a tese de Coudry em 1986,
transformada em livro em 1988 [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref6">7</xref>
        ].
2 “as interfaces, como qualquer outro lugar onde se verificam
processos semióticos, nunca são neutras ou ingênuas” (tradução
dos autores)
computacional, requer um trabalho simbólico que mobiliza
processos linguístico-cognitivos que ganham saliência
quando o sujeito ou comete (supostos) erros ou faz uso de
alguma estratégia inusitada ou aparentemente desnecessária
para evitá-lo na tentativa de alcançar o seu objetivo, qual
seja, a prática de linguagem propriamente dita: perguntar,
responder, comentar, discordar, etc.. Trata-se de um
trabalho que se realiza por meio de operações de
construção de sentidos a partir dos elementos verbais e não
verbais que a interface exibe no momento desse diálogo
particular, e que convoca a atuação integrada das funções
superiores: linguagem, memória, percepção, atenção
dirigida, gestualidade, raciocínio intelectual[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref24">25</xref>
        ]. A análise
de tais erros e estratégias - tomados como indícios das
hipóteses que o sujeito elabora ao interagir com esse objeto
- pode revelar aspectos importantes da relação
linguagem/design e design/linguagem, foco deste estudo.
Esses supostos erros ou estratégias para contorná-los
podem estar relacionados com a usabilidade do sistema,
confirmada através de uma análise criteriosa do erro
propriamente dito ou do contexto em que aparece a solução
encontrada pelo usuário. Nielsen [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref27">28</xref>
        ] descreve que
usabilidade, segurança, efetividade e utilidade como
objetivos no desenvolvimento de sistemas, englobando-os
em um conceito mais amplo que ele denomina de
“aceitabilidade geral de um sistema”. A aceitabilidade geral
de um sistema é a combinação de sua aceitabilidade social e
de sua aceitabilidade prática, sendo um de seus
componentes a usabilidade. Usabilidade é definida em
função de cinco componentes [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref27">28</xref>
        ]:
- Facilidade de aprendizagem (learnability): o sistema
precisa ser fácil de aprender de forma que o usuário possa
rapidamente começar a interagir;
- Eficiência: O sistema precisa ser eficiente no uso, de
forma que uma vez aprendido o usuário tenha um elevado
nível de produtividade;
- Facilidade de relembrar (memorability): o sistema precisa
ser facilmente relembrado, de forma que o usuário ao voltar
a usá-lo depois de um certo tempo não tenha novamente
que aprendê-lo;
- Erros: O sistema precisa ter uma pequena taxa de erros, ou
seja, o usuário não pode cometer muitos erros durante o seu
uso e, se errar, deve ser fácil recuperar;
- Satisfação subjetiva: Os usuários devem gostar do
sistema, ou seja, deve ser agradável de forma que o usuário
fique satisfeito ao usá-lo.
      </p>
      <p>
        Nielsen [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref27">28</xref>
        ] propõe 10 heurísticas de usabilidade, regras
gerais que objetivam descrever propriedades comuns de
interfaces usáveis:
1- Visibilidade do status do sistema;
2- Compatibilidade do sistema com o mundo real;
3- Controle do usuário e liberdade;
5- Prevenção de erros;
      </p>
    </sec>
    <sec id="sec-2">
      <title>6- Reconhecimento ao invés de relembrança;</title>
    </sec>
    <sec id="sec-3">
      <title>7- Flexibilidade e eficiência de uso;</title>
    </sec>
    <sec id="sec-4">
      <title>8- Estética e design minimalista;</title>
      <p>9- Ajudar os usuários a reconhecer, diagnosticar e corrigir
erros;
10- Help e documentação.</p>
      <p>Neste trabalho utilizaremos as heurísticas de Nielsen como
base para discussão das decisões de designs das interfaces
de usuário das aplicações estudadas, apresentadas na
próxima seção.</p>
      <p>
        AS APLICAÇÕES UTILIZADAS: TELEDUC E ORKUT
Os dados utilizados para embasar a discussão neste trabalho
são oriundos de interações reais na web social, mais
especificamente, por meio do ambiente de
ensinoaprendizagem TelEduc [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref34">35</xref>
        ] e da rede social Orkut[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref28">29</xref>
        ].
Estes dados foram produzidos em seus contextos originais
de uso e são aqui analisados sob duas perspectivas. Em
primeiro lugar, foi feita uma análise linguística do(s)
enunciado(s) do(s) participantes das práticas de linguagem
focalizadas. Tal análise se pauta na formulação de
dadoachado da ND (Coudry, 1996) e busca pistas e sinais que
podem revelar particularidades do trabalho do sujeito sobre
a língua e, neste caso específico, sobre a própria interface
da aplicação por ele utilizada. Essas pistas são então
contrastadas com as heurísticas de Nielsen com o objetivo
de se confirmar ou refutar sua relação com questões de
design e usabilidade.
      </p>
      <p>
        O TelEduc [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref34">35</xref>
        ] é um ambiente de ensino-aprendizagem
desenvolvido pelo Núcleo de Informática Aplicada à
Educação (NIED) da Universidade Estadual de Campinas,
adotado por várias instituições públicas e privadas, entre
elas, a própria Universidade por meio do Programa Ensino
Aberto3.
      </p>
      <p>Trata-se de um sistema que agrega ferramentas de
administração, de coordenação e de comunicação
delineadas para dar suporte a ações de
ensinoaprendizagem. As páginas do ambiente são divididas em
duas partes: à esquerda estão as ferramentas usadas durante
o curso e, à direita, o conteúdo que corresponde à
ferramenta selecionada na lista à esquerda. A página de
entrada do ambiente é a Agenda que contém informações
atuais, dicas ou sugestões dos professores/formadores para
os alunos. É uma ferramenta importante porque organiza as
atividades de um determinado período, similar ao que
ocorre no início de uma aula presencial.</p>
      <p>O professor de um curso pode escolher um subconjunto de
ferramentas para ser usado, que pode ser alterado no
3 http://www.unicamp.br/EA/
decorrer do próprio curso. Assim, é possível que em um
determinado momento algumas ferramentas não sejam
visíveis no lado esquerdo da tela. Tornar disponível ou não
uma ferramenta durante o curso é parte das decisões
metodológicas tomadas por cada equipe e o oferecimento
de uma nova ferramenta é, geralmente, anunciado na
Agenda.</p>
      <p>
        Na ferramenta Estrutura do Ambiente4 o usuário encontra
uma descrição das funcionalidades de cada ferramenta do
ponto de vista de seus idealizadores. Nem sempre os
usuários do ambiente usam uma ferramenta de acordo com
a sua concepção original, o que mostra a flexibilidade do
ambiente na sua forma de utilização em função dos
objetivos/metodologia utilizada[
        <xref ref-type="bibr" rid="ref29">30</xref>
        ]. É, portanto, com base
nos diferentes usos que as pessoas fazem do ambiente que
novas ferramentas – ao longo da história do TelEduc – são
desenvolvidas e a ele incorporadas.
      </p>
      <p>
        Freire [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref11">12</xref>
        ], descreve que o TelEduc pode ser visto como o
produto de um conjunto de conhecimentos estreitamente
relacionados ao exercício social da linguagem em meio a
diferentes práticas sociais de escrita, em especial. Suas
primeiras versões se basearam em experiências de cursos de
formação de professores na área de Informática na
Educação: os idealizadores do ambiente tentavam
reproduzir – em alguma medida – as metodologias
presenciais bem-sucedidas para o ambiente virtual. Essa,
então, “nova tecnologia”, sem dúvida, interferiu de maneira
definitiva no(s) modo(s) de se construir conhecimento. O
uso continuado do ambiente – com diferentes usuários e em
diferentes contextos de ensino-aprendizagem –
impulsionaram mudanças, colocando desafios que ainda
não haviam sido pensados.
      </p>
      <p>
        Assim, a interface do ambiente – sua nomenclatura com
cores, botões, caixas, links, rótulos – dão corpo a um
conhecimento – cursos à distância, semipresenciais, apoio a
cursos presenciais – metodologias diferenciadas, que
apontam para a construção de uma cultura própria [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref11">12</xref>
        ].
      </p>
      <p>
        O Orkut [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref28">29</xref>
        ], por sua vez, é uma rede social com o objetivo
de fomentar os relacionamentos entre seus membros,
possibilitando que seus usuários mantenham contato entre si
e construam/proponham comunidades. O público-alvo do
Orkut é abrangente, variando a idade e a experiência com a
Web. Para a presente discussão, será analisada a
comunidade “Livros, Textos e Redação” que visa a troca de
experiência em relação à escrita, e é composta por membros
de várias faixas etárias.
4 Eis a lista completa de ferramentas do ambiente: Dinâmica,
Agenda, Avaliações, Atividades, Material de Apoio, Leituras,
Exercícios, Enquete, Parada Obrigatória, Fóruns de Discussão,
Mural, Bate-Papo, Correio, Grupos, Perfil, Diário de Bordo,
Portfólio Individual e de Grupo, Acessos e Intermap.
É a partir do uso que esses grupos fazem da tecnologia em
seus contextos sociais que este trabalho discute as relações
entre práticas de linguagem e decisões de design.
      </p>
      <p>FÓRUM DO ORKUT E FÓRUM DO TELEDUC: DESIGN E
PRÁTICAS DE LINGUAGEM
O fórum do Orkut tem o propósito de possibilitar um
espaço de discussão entre os usuários de suas comunidades
de forma assíncrona, o que significa que o tempo entre a
leitura e a resposta pode variar amplamente.</p>
      <p>Ao acessar a ferramenta Fórum, a ferramenta exibe uma
lista de tópicos de discussão, organizados através da data da
última mensagem postada naquele tópico (Figura 1).
Selecionado um Fórum, a ferramenta lista as mensagens
postadas em ordem cronológica da mais antiga para a mais
recente (Figura 2). Ao clicar no botão “Responder” ao final
da lista de mensagens, a ferramenta exibe a tela de
postagem de mensagem (Figura 3).</p>
      <p>Pode-se dizer que o fórum do Orkut é fácil de ser utilizado
por um amplo público. Como contraponto ao seu design,
vejamos a ferramenta Fóruns de Discussão do ambiente
TelEduc.</p>
      <p>A ferramenta Fórum organiza as discussões em vários
fóruns, identificadas através de títulos (Figura 4). Na
discussão, pode-se postar uma mensagem, que abre uma
nova thread de mensagens, ou então responder a uma
mensagem publicada. Para abrir uma nova thread de
mensagens, o usuário clica no link “Compor nova
mensagem” no canto superior esquerdo da interface (Figura
5). Para responder a uma mensagem, o usuário deve
visualizá-la e então clicar no botão “Responder” (Figura 6).</p>
      <p>A ferramenta Fóruns de Discussão do TelEduc armazena o
relacionamento entre as mensagens trocadas, ou seja, qual
mensagem foi postada em resposta a uma outra. Essa
informação possibilita exibir as mensagens publicadas
através de uma ordem chamada de “árvore”. Outras formas
de ordenamento são possíveis, como por autor, data, título
da mensagem e relevância da mensagem.</p>
      <p>Figura 2 - Tela de visualização de mensagens postadas na</p>
      <p>ferramenta Fórum do Orkut.</p>
      <p>Figura 3 – Tela de postagem de mensagem na ferramenta</p>
      <p>Fórum do Orkut.</p>
      <p>Figura 4 – Tela de visualização de discussões na ferramenta
Fóruns de Discussão do TelEduc.</p>
      <p>Figura 1 - Tela de visualização de tópicos na ferramenta</p>
      <p>Fórum do Orkut.</p>
      <p>Figura 5 – Tela de visualização de mensagens postadas na
ferramenta Fóruns de Discussão do TelEduc.</p>
      <p>Figura 6 – Tela de postagem de mensagem na ferramenta</p>
      <p>Fóruns de Discussão do TelEduc.</p>
      <p>Ressalte-se a principal diferença entre as ferramentas
Fórum do Orkut e Fóruns de Discussão do TelEduc.
Talvez, pelo fato de ter foco educacional, a ferramenta
Fórum do Orkut não armazena o relacionamento entre as
mensagens: toda mensagem postada é adicionada ao final
da lista de mensagens.</p>
      <p>Analisando essa prática de linguagem particular
observamos que além de ser necessário o usuário
referenciar em suas mensagens seu interlocutor é preciso
que ele relembre o contexto da interação antes de escrever a
nova mensagem. A análise linguística dos enunciados dá
visibilidade a um problema de usabilidade que
provavelmente não seria identificado através de uma
avaliação heurística padrão: é no acontecimento de uma
prática de linguagem particular que surge o conflito em
questão.</p>
      <p>Pode-se dizer que a heurística “Reconhecimento ao invés
de relembrança” é transgredida na tela de exibição de
mensagens da ferramenta Fórum do Orkut, pois os usuários
são obrigados a lembrar (ou a realizar um processo mental
de relacionamento entre as mensagens) quais mensagens
são respostas a uma mensagem publicada e quais são as
mensagens que abrem uma nova discussão. Esse problema
já não ocorre no TelEduc, pois a ferramenta Fóruns de
Discussão expõe esse relacionamento entre as mensagens
ao usuário através da organização por árvore e também
utilizando o “Re:” para indicar as respostas.</p>
      <p>Outro problema relacionado a heurística “Reconhecimento
ao invés de relembrança” é verificado quando o usuário
responde a uma mensagem no fórum do Orkut. Na
ferramenta Fóruns de Discussão do TelEduc, ao responder
uma mensagem, a mensagem que se deseja responder é
exibida na parte inferior da tela, conforme pode ser
constatado na Figura 6, atendendo assim a esta heurística.
Na ferramenta Fórum do Orkut isso não acontece, conforme
pode ser constatado na Figura 3. O usuário é então obrigado
a relembrar a discussão realizada, e caso deseje responder a
uma mensagem, relembrar quem foi o autor da mensagem, e
às vezes, relembrar o conteúdo da mensagem que deseja
responder.</p>
      <p>Por fim, a ação de responder (clicar no botão “Responder”)
da ferramenta Fórum do Orkut se assemelha mais a publicar
uma mensagem do que a responder propriamente. Há ainda,
outro problema de design, “Responder” não faz sentido
quando se trata de postar uma mensagem que inicia um
subtópico, tal como fez Joice neste dado.</p>
      <p>PRÁTICA DE LINGUAGEM E DESIGN: PORTFÓLIO DO
TELEDUC
Para discutir o modo como aplicações para web podem
apoiar/suportar determinadas práticas de linguagem
apresentamos um dado particular extraído de um curso de
formação de professores utilizando o ambiente TelEduc,
mais especificamente, destacamos a ferramenta Portfólio.</p>
      <p>O curso em questão se pauta em uma metodologia
especialmente elaborada para cursos semipresencias (76h a
distância e 24h presenciais) fortemente focada na interação
e, portanto, no uso das ferramentas de comunicação. A
metodologia utilizada e, portanto, as práticas de linguagem
que nele ocorrem, se baseia em uma concepção de
formação de professores que se afasta de uma formação
compensatória para se propor como espaço de reflexão
prático-teórica onde as atividades propostas dão vida aos
conceitos tratados. Dessa forma, os participantes articulam
vários saberes – o que já conhecem do assunto e suas
crenças, valores, história pessoal e profissional – àqueles
que estão aprendendo por meio de leituras teóricas,
discussões coletivas, leitura dos trabalhos dos colegas,
reflexões a partir dos comentários que recebem a respeito
de seus trabalhos. Tal dinâmica demanda a vivência de
diferentes papéis discursivos − leitor de si mesmo, leitor do
outro, escrevente, comentador, debatedor etc.</p>
      <p>
        Na ferramenta Portfólio do TelEduc (Figura 8) os
participantes do curso podem armazenar textos e arquivos
utilizados e/ou desenvolvidos durante o curso, bem como
endereços da Internet. Esses dados podem ser particulares,
compartilhados apenas com os formadores ou
compartilhados com todos os participantes do curso; podem
também ser compartilhados com integrantes de um mesmo
grupo, no caso do Portfólio de Grupo. Quando um item de
Portfólio é compartilhado com todos os participantes
podem ver os demais Portfólios e comentá-los. Duas
características do Portfólio são importantes para a
construção/partilha de conhecimentos: o modo de
compartilhamento e a possibilidade de postar comentários
com diferentes propósitos [
        <xref ref-type="bibr" rid="ref11">12</xref>
        ].
      </p>
      <p>Na prática de linguagem em questão, os professores do
curso5 convidam os participantes a produzirem um
memorial sobre a sua História de Escrita, ocasião em que
5 Trata-se do curso “A relação normal/patológico no ensino:
cérebro e linguagem”, coordenado por Maria Irma Hadler
Coudry e Fernanda Maria Pereira Freire, oferecido pelo Centro
de Formação Continuada de Professores do Instituto de
Estudos da Linguagem (CEFIEL) no período de 04/09/2006 a
06/11/2006.</p>
      <p>Figura 7 – Exemplo de uso da ferramenta Fórum do Orkut por um usuário.
Figura 8 – Visão geral da Ferramenta Portfólio do TelEduc.
Figura 9: Diferentes versões do memorial e os comentários</p>
      <p>recebidos pelo autor.
cada participante recorda a sua própria história por meio da
escrita e da reescrita ao longo do curso. A cada semana os
participantes compartilham com os colegas uma nova
versão do memorial (Figura 9).</p>
      <p>Todos são incentivados a ler os memoriais uns dos outros e
a postar algum comentário. Assim apontam relações que
fazem com as suas próprias histórias, falam a respeito do
modo como o texto está escrito, sugerem modificações em
trechos do texto. Comportam-se como “críticos”, o que leva
os autores a responder aos comentários recebidos e/ou a
incorporar as sugestões que lhes foram feitas.</p>
      <p>Esta prática de linguagem cria uma rede de escreventes e
leitores, possível graças aos recursos da ferramenta.
Portfólio. Observe-se que o design da ferramenta permite
esta troca de experiências de maneira organizada e fácil de
ser usada. Os comentários são marcados com cores
diferentes para indicar o tipo de remetente: se o
professor/formador, um colega ou um comentário próprio,
isto é, uma réplica a um comentário recebido (observe-se o
retângulo vermelho à esquerda, da Figura 2). Sempre que
um novo comentário é postado, o item de Portfólio fica
negritado indicando que há uma “novidade”. Esses dois
recursos atendem à heurística “Reconhecimento ao invés de
relembrança”. A implementação desses recursos é
necessária para informar aos usuários as ações realizadas
após a sua última entrada no ambiente, diminuindo a
relembrança. Esse recurso também evita que mensagens
sejam enviadas pelos usuários para informar sobre o que foi
realizado no ambiente.</p>
      <p>A análise de uma prática de linguagem como esta pode
desencadear o desenvolvimento de novas funcionalidades.
Por exemplo, seria desejável que a aplicação indicasse os
comentários que ainda não foram lidos, o que seria um
recurso facilitador para o proprietário do Portfólio em
questão, atendendo assim, mais uma vez, à heurística
“Reconhecimento ao invés de relembrança”. Essa
funcionalidade possivelmente seria difícil de ser relatada
por uma avaliação de usabilidade, sendo mais fácil de ser
percebida quando, de fato, a prática de linguagem ocorre.</p>
      <p>CONSIDERAÇÕES FINAIS
Discutiu-se nesse artigo o modo como as interfaces afetam
as práticas de linguagem: seja exigindo que o usuário lance
mão de estratégias de dizer para contornar restrições de
design, seja apoiando as práticas de linguagem as quais a
aplicação se destina.</p>
      <p>Exemplos de uso das ferramentas Fórum da rede social
Orkut e Fórum de Discussão do ambiente TelEduc foram
utilizados para demonstrar que nem sempre o design da
aplicação – no caso, o Fórum do Orkut – dispõe de
funcionalidades para apoio à prática de linguagem a qual se
propõe. Um fórum pressupõe, minimamente, que as pessoas
postem mensagens com propósitos variados – fazer
perguntas, responder perguntas, fazer comentários, fazer
esclarecimentos etc. A menção a “Responder” de alguma
maneira interfere no modo como o usuário organiza seu
enunciado. Da mesma forma, a organização cronológica e a
impossibilidade de postar comentários entre um conjunto de
comentários demandam do usuário um esforço
linguísticocognitivo adicional. No dado aqui apresentado, esse esforço
se materializa pelo uso explícito do nome a quem se destina
a mensagem. Neste caso, a prática de linguagem se ajusta
ao design da aplicação.</p>
      <p>Diferentemente, procuramos mostrar por meio da análise do
dado do Portfólio do TelEduc como as decisões de design
se ajustam à prática de linguagem que por seu intermédio
acontece. Procuramos também apontar – a partir da análise
desta prática de linguagem particular - outras
funcionalidades que poderiam ser acrescidas à ferramenta
em questão.</p>
      <p>Por fim, esperamos ter mostrado que a análise cuidadosa do
acontecimento linguístico em contextos web pode
contribuir tanto para decisões de design quanto para a
identificação de problemas de usabilidade.</p>
      <p>Embora o número de casos apresentado seja pouco
expressivo – por se tratar de um estudo exploratório com
enfoque qualitativo – e a metodologia de análise não possa
ser considerada um método de avaliação de interfaces,
consideramos que a combinação entre uma análise
linguística dos enunciados em situações reais de interação e
uma análise da interface orientada pelas heurísticas de
Nielsen se mostra sensível para detectar problemas de
usabilidade. Esta combinação deverá, em estudos futuros,
se voltar para outras heurísticas com o objetivo de se
avaliar sua abrangência.</p>
      <p>AGRADECIMENTOS
Agradecemos a CAPES e o CNPq pelo suporte financeiro
através de bolsa de pequisa.</p>
      <p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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